quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O Médico e o Xamã ou a Instrumentalização da estética indígena para validar uma intervenção médica.

 

https://www.doctorswithoutborders.org/latest/shaman-and-doctor-together-three-years-care-yanonami-indigenous-land


Há vários anos venho trabalhando e discutindo como antropólogo as possibilidades de "integração" ou "articulação", como enfatiza a PNASPI, entre os cuidados de curas tradicionais indígenas e os serviços oficiais de saúde em meus artigos e publicações. Porém, eu não posso ficar em silêncio ao ler esta notícia. Gostaria de compartilhar com você alguns pontos sobre este texto intitulado: "Xamã e médico, juntos", publicado por Médicos Sem Fronteiras (MSF), pois apresenta superficialmente um relato de sucesso em “sensibilidade cultural” de 16 de dezembro de 2025

[https://www.doctorswithoutborders.org/latest/shaman-and-doctor-together-three-years-care-yanonami-indigenous-land].

No entanto, após uma leitura crítica desta reportagem, o texto revela-se uma peça clássica de marketing humanitário que instrumentaliza a estética indígena para validar uma intervenção externa, deixando de reconhecer as assimetrias de poder e as incompatibilidades epistemológicas entre a “medicina de emergência” ocidental e as cosmologias tradicionais. Seguem abaixo os pontos centrais desta crítica, baseada na premissa de que a organização carece das bases profundas necessárias para sustentar tais alegações.

1. A Romantização da "Integração", "Articulação" (Xamã e Médico)
O texto vende a imagem de uma simbiose harmoniosa entre a medicina biomédica e o xamanismo ("Xamã e médico, juntos"). No entanto, para uma organização definida por sua natureza emergencial e temporária (o texto cita um projeto de apenas três anos), essa "integração" é, na melhor das hipóteses, uma coexistência paralela e, na pior, uma cooptação estratégica. O texto celebra o fato de os Yanomami realizarem o ritual Xapori e depois consultarem um médico. Isso não é integração médica; é triagem. A medicina ocidental continua sendo apresentada como a "solução definitiva" e a autoridade técnica, enquanto o xamanismo é reduzido a "conforto espiritual" ou a uma etapa processual tolerada para garantir a adesão ao tratamento biomédico.

A compreensão dos sistemas de cura xamânicos exige décadas de imersão antropológica e convivência. Uma organização que opera em regime de "chegada e partida rápida" carece da substância cultural necessária para reivindicar uma verdadeira troca de conhecimento. O uso de "antropólogos" citados no texto serve mais como uma aparência de legitimidade do que como garantia de paridade ontológica.

2. A Construção Errônea da "Saúde Mental Indígena"

Talvez o ponto mais crítico seja a imposição de categorias psiquiátricas ocidentais às populações indígenas. O texto cita com orgulho "psicoeducação", "primeiros socorros psicológicos" e "consultas individuais".

O sofrimento atual dos Yanomami deriva da invasão territorial, da contaminação por mercúrio e da violência sistêmica (mineração ilegal). Ao tratar a angústia resultante como uma questão de "saúde mental" a ser resolvida em "consultas individuais" ou grupos de apoio, a organização despolitiza a dor. Ela transforma uma catástrofe coletiva e cosmológica em uma patologia individual tratável com as ferramentas da psicologia ocidental.

O conceito de um "mental" ou "psique" separado do corpo e do território é estranho a muitas cosmologias indígenas. Aplicar a "psicoeducação" (educar a psique) pode ser visto como uma forma de neocolonialismo subjetivo, onde o indígena é ensinado a sofrer "à maneira ocidental", ignorando que, para muitos desses povos, a doença individual é um desequilíbrio do mundo/floresta, e não uma disfunção neuroquímica ou emocional individual.

3. A Lógica da Eficiência versus o Tempo da Cultura

O texto é obcecado pelas métricas de eficiência típicas de relatórios de doadores: "redução de 20%", "5.582 membros alcançados", "transição tranquila".

Essa linguagem gerencial expõe a natureza do projeto: uma intervenção técnica de curto prazo. Culturas milenares não se "integram" a sistemas biomédicos em 36 meses. A alegação de ter "aprendido sobre doenças espirituais" em tão pouco tempo soa como arrogância institucional. O texto trata a cultura Yanomami como um software que precisava de uma atualização (conscientização sobre malária) para funcionar melhor, em vez de como um sistema de conhecimento soberano.

4. O Marketing da "Transição Responsável"

O artigo conclui focando-se na "saída" e na "transição", admitindo implicitamente a falta de raízes locais da organização. A crítica reside no fato de a organização usar a imagem do indígena (fotos coloridas, danças, rituais) para angariar fundos globalmente, mas sua estrutura não permite a permanência que garantiria uma verdadeira defesa do território. "Transição" muitas vezes significa devolver a responsabilidade a um sistema estatal (DSEI) que já estava falhando, deixando para trás apenas "lições aprendidas" e panfletos, sem alterar a estrutura de vulnerabilidade.

Enfim, essa peça publicitária é eficaz em acalmar a consciência dos doadores ocidentais, criando uma fantasia de cooperação intercultural. No entanto, ela encobre a realidade de que as intervenções humanitárias de emergência são estruturalmente incapazes de dialogar profundamente com a medicina tradicional. Ao tentar enquadrar o xamanismo e a cosmologia Yanomami em planilhas do Excel e protocolos de "saúde mental", a organização corre o risco de praticar violência simbólica, reduzindo o conhecimento ancestral a meros coadjuvantes na eficácia da biomedicina.

Recife, 18 de dezembro de 2025
renato.athias@ufpe.br
CV: http://lattes.cnpq.br/3820775754333816



segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Entre memórias e conquistas, os 50 anos de Nova Fundação um tributo à resistência

 

Nova Fundação 1978 dia do batismo em massa entre os Hupd'äh - Dom Miguel pode ser visto no centro da fotografia.

A comunidade de Nova Fundação celebrou recentemente cinco décadas de existência, marcando a história do povoado fundado em 1974 entre os Hupd'äh, às margens do Igarapé Cucura, no médio Rio Tiquié. O nome, Nova Fundação, revelara na ocasião o espírito inovador dos missionários ao implantarem estratégias distintas e mais eficazes, em contraste com as experiências anteriores nas fundações de Fátima (do Tiquié) e Serra dos Porcos – ambas criadas dez anos antes. Como me confidenciou o padre Afonso Casasnovas: objetivo era superar os traumas de abordagens passadas, como a frustrada implementação da política de "colonos" que resultou na construção da Estrada ligando Boca da Estrada, no Rio Tiquié, a Iauareté, no Uaupés, no final dos anos 1950.

Rememorar é reviver: a fotografia acima, registrada em 1978, eterniza o antigo local de Nova Fundação, próximo ao Igarapé Anta, onde tudo começou. Atualmente, o povoado se encontra mais próximo do Rio Tiquié, junto à ponte do Igarapé Cucura, quase invadindo os limites tradicionais do Cucura dos Desana. É nessas águas e terras que o tempo corre, e as histórias se cruzam.

O evento retratado na imagem foi um dia de batismo em massa dos Hupd’äh de Nova Fundação, conduzido pelo bispo Dom Miguel Alagna, figura bem no centro da fotografia. Sua presença lá também tinha um propósito doloroso: comunicar aos três voluntários leigos espanhóis que trabalhavam entre os Hupd'äh, Maria do Rosário, João Paulo, sua esposa Rocio e suas filhas Fátima e Miriam – que, devido à repressão do governo militar, estavam sendo expulsos do Brasil. Na mesma conjuntura, antropólogos como Peter Silverwood-Cope, Kenneth Taylor, David Price, e o missionário italiano Vito Miracapilo também foram forçados a deixar o país, silenciando vozes de apoio e pesquisa entre os povos indígenas.

Amburu, Dipu, João Paulo, Fatima e Rocio com Miriam no seu colo, 1978

Naquele dia, não consegui conter minha indignação e confrontei Dom Miguel de forma veemente, deixando claro o quanto considerava aquilo um ato ultrajante e uma afronta aos direitos humanos. Era inaceitável que os Hupd'äh fossem obrigados a renunciar aos seus nomes autênticos, carregados de história e pertencimento ao seu clã, para serem substituídos arbitrariamente por nomes próprios e sobrenomes portugueses. Essa imposição absurda revivia em mim a memória amarga do que ocorreu em Portugal em 1497, quando centenas de judeus foram forçados a aceitar batismos em massa, recebendo nomes de “cristãos-velhos” e tendo suas identidades brutalmente apagadas.

Os alunos em 1978 e o professor Severiano Sampaio

Este jubileu de Nova Fundação é, também, a celebração dos 50 anos da Escola Cristo Libertador – a primeira escola entre os Hupd’äh do médio Tiquié. A trajetória da escola está intrinsecamente ligada a Severiano Sampaio, seu primeiro professor, que dedicou mais de um quarto de século à missão de educar e transformar vidas ao lado de Josefina sua esposa. O legado de Severiano permanece vivo e pulsante, ecoando nos sonhos de cada criança que cruzou o portal da Escola Cristo Libertador.

Entre memórias, despedidas e conquistas, os 50 anos de Nova Fundação ressoam como um tributo à resistência, à esperança e à educação, celebrando não apenas o passado, mas também o futuro de um povo que segue tecendo sua identidade à beira dos rios amazônicos.




Sobre as escolas e professores Hupd'äh ler o seguinte texto:

Renato Athias

Oralidade e prática de ensino entre os professores Hupd'äh da região do Alto Rio Negro


quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O que o Museu deve a Carlos Estevão


 O QUE O MUSEU DEVE A CARLOS ESTEVÃO


NÃO faz muito tempo passou por Belém um jornalista do “Correio da Manhã”. Dirigia-se à Norte América como enviado especial daquele grande órgão da imprensa brasileira. Nos poucos dias que permaneceu nesta capital, o jornalista fez várias visitas, e entre estas, uma ao Museu Paraense Emílio Goeldi. Nesse estabelecimento, que é um instituto científico, o confrade carioca conversou com o diretor a quem conferiu o título de doutor, e dando à palestra a forma de entrevista, enviou-a ao seu jornal numa peça bem escrita, que o conhecido diário estampou na sua edição de 27 de julho último. É estranhável que, em tal assunto, não se faça a mais leve referência ao derradeiro diretor do Museu, o saudoso e ilustre cientista Carlos Estevão. Não é a primeira vez que assim acontece. Ha o indisfarçável empenho de apagar ou obscurecer a obra daquele esforçado batalhador. Qual o intuito desse propósito? Não será fácil atinar. Entretanto, Carlos Estevão trabalhou tenazmente, durante quase 15 anos, pelo engrandecimento da casa cuja direção lhe foi entregue em 1930 pelo sr. Magalhães Barata. Quem visitou o Museu durante a direção do grande apaixonado das coisas da Amazônia, poderá bem julgar a sua obra. A falta de técnicos que a entrevista a que estamos nos reportando faz ressaltar, não é de hoje, e o problema seria resolvido por Carlos Estevão, se a sua saúde já não andasse tão abalada. No momento não seria possível importar cientistas que tais. E o então diretor, já hoje quase esquecido, tinha a intenção de formá-los no próprio Museu, com gente moça e capaz. Assim, enviou ao Ceará duas das suas funcionárias para que se especializassem em Piscicultura, uma das quais seguiu, posteriormente, até ao Rio, obtendo ótima classificação em concurso em que se inscreveu.

Duas outras fizeram o seu curso com o muito notável etnólogo Curt Nimuendajú. Outras duas deveriam partir para o Rio e São Paulo afim de fazer cursos de especialização. Para ampliar os trabalhos que dirigia, Carlos Estevão pediu ao governo o aumento do quadro dos funcionários com a criação dos cargos de chefes de geologia, botânica e zoologia. Auxiliares competentes e dedicados, como os drs. Raimundo Dias e Rubens Lima, foram obrigados a afastar-se por algum tempo do Museu, o que fizeram com a intenção de voltar. Mas, a maldade humana mudou o rumo das coisas, e outros auxiliares também se retiraram e, como aqueles, não mais regressaram. Foi no Museu de Carlos Estevão que nasceram as primeiras experiências, e que se realizaram os primeiros estudos para a cultura do pirarucu, e foi de lá que partiram os primeiros alevinos, que o então presidente Getúlio encontrou e admirou adultos nos açudes do nordeste. O sistema de lagos existente no Museu para criar peixes, é realização de Carlos Estevão. Da dedicação de Rubens no Horto Botânico e de Emília Dyer no orquidário pôde dar testemunho o sr. Felisberto de Camargo, que os chamou para o Instituto Agronômico, assim que soube do seu afastamento do grande parque científico.
Um curso de entomologia criado na direção de Carlos Estevão, não pôde ser concluído, apesar de adiantado, por isso que o professor que o ministrava foi transferido para a Capital Federal. Infelizmente, o mais grandioso plano de Carlos Estevão para dotar esta terra de um Museu digno dela, plano gigantesco, não foi possível levar a efeito. Era a construção de um edifício suntuoso e apropriado, que encheu de admiração o arquiteto, que lhe desenhou a planta, que deve estar exposta em uma das salas onde pôde ser vista. Nesse palácio encantado haveria dois Museus: — um para o cientista, e outro para o público. Em galerias seriam instaladas as salas de geologia, a terra; a seguir a de botânica, as plantas; depois, a de zoologia, os animais; e finalmente a de etnologia, o homem. Carlos Estevão teria realizado esse seu grande sonho, pois o governo federal faria erguer o edifício, se não fossem os entraves trazidos pela guerra.

Em 1930 passou por esta cidade, a bordo do “Almirante Jaceguai”, um cientista de alto renome, o dr. Olivério Mário de Oliveira Pinto, assistente de zoologia do Museu Paulista. Este jornal, por intermédio de Alexandre Andrade, o entrevistou naquele transatlântico. Declarou o dr. Oliveira Pinto: “Minha impressão mais forte de naturalista, tive-a visitando pela primeira vez o Museu Goeldi.” Referiu-se, depois, ao que corria no Sul, isto é, que devido à crise da borracha, tinha o famoso estabelecimento sido atingido em cheio pela incúria ou malquerença dos governos. “Eis senão quando ao conhecê-lo de visu, tenho a grata surpresa de encontrá-lo redivivo e fundamentalmente reconstituído pela dedicação e zelo de dois devotos apaixonados na natureza, a cuja orientação e competência estão atualmente entregues os seus destinos”. Depois, assim se expressou: “Voltando naturalmente minha atenção em especial ás aves, passei a admirar não só a amplitude dos viveiros em que se acham, por assim dizer, em liberdade, exemplares do que o nosso mundo alado oferece de mais garrido e mais vistoso, mas ainda a profusão e variedade dos que vivem a salvo de qualquer artifício capaz de forçá-los ao cativeiro, empoleirando-se nos galhos e nidificando nas árvores, na mesma tranquilidade e segurança com que o fariam nos sítios para os quais os talhara a natureza”. Prosseguindo, o entrevistado falou nestes valiosos termos: “Recebido cordialmente pelos doutores Carlos Estevão e G. Hagmann, travei conhecimento com a sua preciosa biblioteca, onde fiz questão de admirar a celebre obra de Goeldi sobre a majestosa família dos tucanos, que sabia ali existir através de referências. A seguir deram-me aqueles distintos colegas a honra de conhecer os desenhos originais de uma iconografia dos mamíferos amazônicos, obra esplêndida, em curso de preparação. Ao sair dali, num dos bancos do jardim paradisíaco, em palestra amável, confiou-me o dr. Carlos Estevão os seus largos projetos de ampliação e aperfeiçoamento do Instituto que dirige. Já com os melhores recursos que lhe promete o governo, já com a aplicação inteligente das rendas que o mesmo produz”.

O Museu possui uma importante coleção de material africano que não sabemos se está exposta, doação do coronel José Júlio de Andrade por deferência a Carlos Estevão, que era guardada em duas montras, tudo etiquetado e relacionado (1939). Só em 1933, três anos apenas de direção, Carlos Estevão dotou o Museu de vários melhoramentos e reformas, como abrigo dos quadrupedes, tanques das lontras, aquário, viveiros de plantas, gaiola das feras, tanque do jacaré grande, gaiolas dos mutuns, roedores e maracajás, ninhos para garças, gaiola das araras e urubus, obras na biblioteca, caixas para peixes, muros das av. Independência, Gentil Bittencourt e trav. 9 de Janeiro, etc. etc. etc.. Não nos parece, pois, de justiça, que se tente esconder ou apagar o trabalho e o valor desse homem que tanto tinha de modesto como de sábio: Carlos Estevão de Oliveira.
Belém, PA. Folha Vespertina, 05/08/1946

Belém, PA, Folha Vespertina, 05/08/1946