https://www.doctorswithoutborders.org/latest/shaman-and-doctor-together-three-years-care-yanonami-indigenous-land
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
O Médico e o Xamã ou a Instrumentalização da estética indígena para validar uma intervenção médica.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Entre memórias e conquistas, os 50 anos de Nova Fundação um tributo à resistência
A comunidade de Nova Fundação celebrou recentemente cinco décadas de existência, marcando a história do povoado fundado em 1974 entre os Hupd'äh, às margens do Igarapé Cucura, no médio Rio Tiquié. O nome, Nova Fundação, revelara na ocasião o espírito inovador dos missionários ao implantarem estratégias distintas e mais eficazes, em contraste com as experiências anteriores nas fundações de Fátima (do Tiquié) e Serra dos Porcos – ambas criadas dez anos antes. Como me confidenciou o padre Afonso Casasnovas: objetivo era superar os traumas de abordagens passadas, como a frustrada implementação da política de "colonos" que resultou na construção da Estrada ligando Boca da Estrada, no Rio Tiquié, a Iauareté, no Uaupés, no final dos anos 1950.
Rememorar é reviver: a fotografia acima, registrada em 1978, eterniza o antigo local de Nova Fundação, próximo ao Igarapé Anta, onde tudo começou. Atualmente, o povoado se encontra mais próximo do Rio Tiquié, junto à ponte do Igarapé Cucura, quase invadindo os limites tradicionais do Cucura dos Desana. É nessas águas e terras que o tempo corre, e as histórias se cruzam.
O evento retratado na imagem foi um dia de batismo em massa dos Hupd’äh de Nova Fundação, conduzido pelo bispo Dom Miguel Alagna, figura bem no centro da fotografia. Sua presença lá também tinha um propósito doloroso: comunicar aos três voluntários leigos espanhóis que trabalhavam entre os Hupd'äh, Maria do Rosário, João Paulo, sua esposa Rocio e suas filhas Fátima e Miriam – que, devido à repressão do governo militar, estavam sendo expulsos do Brasil. Na mesma conjuntura, antropólogos como Peter Silverwood-Cope, Kenneth Taylor, David Price, e o missionário italiano Vito Miracapilo também foram forçados a deixar o país, silenciando vozes de apoio e pesquisa entre os povos indígenas.
Naquele dia, não consegui conter minha indignação e confrontei Dom Miguel de forma veemente, deixando claro o quanto considerava aquilo um ato ultrajante e uma afronta aos direitos humanos. Era inaceitável que os Hupd'äh fossem obrigados a renunciar aos seus nomes autênticos, carregados de história e pertencimento ao seu clã, para serem substituídos arbitrariamente por nomes próprios e sobrenomes portugueses. Essa imposição absurda revivia em mim a memória amarga do que ocorreu em Portugal em 1497, quando centenas de judeus foram forçados a aceitar batismos em massa, recebendo nomes de “cristãos-velhos” e tendo suas identidades brutalmente apagadas.
Este jubileu de Nova Fundação é, também, a celebração dos 50 anos da Escola Cristo Libertador – a primeira escola entre os Hupd’äh do médio Tiquié. A trajetória da escola está intrinsecamente ligada a Severiano Sampaio, seu primeiro professor, que dedicou mais de um quarto de século à missão de educar e transformar vidas ao lado de Josefina sua esposa. O legado de Severiano permanece vivo e pulsante, ecoando nos sonhos de cada criança que cruzou o portal da Escola Cristo Libertador.
Entre memórias, despedidas e conquistas, os 50 anos de Nova Fundação ressoam como um tributo à resistência, à esperança e à educação, celebrando não apenas o passado, mas também o futuro de um povo que segue tecendo sua identidade à beira dos rios amazônicos.
Sobre as escolas e professores Hupd'äh ler o seguinte texto:
Renato Athias
Oralidade e prática de ensino entre os professores Hupd'äh da região do Alto Rio Negro
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
O que o Museu deve a Carlos Estevão
Belém, PA, Folha Vespertina, 05/08/1946






