domingo, 8 de março de 2026

Catarina Paraguaçu

 

Catarina Paraguaçu

Imagem do Monumento 2 de Julho - Catarina Paraguaçu - Salvador

Mais do que a esposa do náufrago português Diogo Álvares (o Caramuru), Catarina foi uma ponte viva entre dois mundos. Em 1561, ela quebrou barreiras inimagináveis para a época: tornou-se a primeira mulher indígena alfabetizada do Brasil.

Em um tempo onde o acesso às letras era negado a quase todos, ela escreveu uma carta histórica ao Padre Manoel da Nóbrega.

Catarina não apenas aprendeu uma nova língua; ela a usou para navegar na diplomacia entre seu povo e os colonizadores.

Ela é a "mãe" simbólica de muitas gerações brasileiras, provando que a sede de conhecimento e a inteligência sempre foram parte das nossas raízes originais.

Catarina Paraguaçu é o símbolo de que a nossa educação começou com a força e a resiliência da mulher indígena. Que o nome dela seja lembrado não apenas como um rodapé, mas como um capítulo fundamental da nossa trajetória.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Monumento_ao_2_de_Julho_%28detail%29_Catarina_Paragua%C3%A7u_-_Salvador_Bahia.jpg

Um grito pela vida e pelo isolamento: A Declaração de Jacarta

 

Um grito pela vida e pelo isolamento: A Declaração de Jacarta 


Em janeiro de 2026, diversas organizações indígenas e da sociedade civil se reuniram para reafirmar o compromisso de proteger os Povos Indígenas em Isolamento (PIACI). Por livre escolha, essas comunidades preferem viver separadas, afastadas do contato contínuo com o resto do mundo. No entanto, essa decisão as torna extremamente vulneráveis a doenças desconhecidas, à violência e à perda de suas terras ancestrais. 

Este texto analisa a Declaração de Jacarta, adotada em 29 de janeiro de 2026 por diversas organizações indígenas e da sociedade civil. O documento foca na proteção dos Povos Indígenas em Isolamento (PIACI), estabelecendo diretrizes éticas e políticas para garantir sua sobrevivência física e cultural. Abaixo, apresento os pontos centrais e uma análise crítica baseada nas demandas do texto.

Com base nesse cenário, o documento aprovado em Jacarta estabelece cinco pilares essenciais, que servem como reivindicações centrais para garantir a sobrevivência física e cultural dos PIACI. 

O primeiro deles diz respeito ao Reconhecimento Territorial: a declaração reforça que esses povos são legítimos proprietários de suas terras, de seus recursos naturais e de todo o saber tradicional que construíram ao longo de gerações. Em seguida, surge o princípio da Não Intervenção, que propõe uma releitura do Consentimento Prévio, Livre e Informado (FPIC), transformando-o no direito de não serem incomodados por qualquer agente externo. 

A terceira reivindicação é a criação das chamadas Zonas de Exclusão (No-Go Zones). Essas áreas seriam totalmente reservadas, proibindo qualquer atividade externa em seus limites, como uma barreira de proteção ao modo de vida dos PIACI. Na mesma direção, o documento exige a Cessação de Atividades Extrativas, solicitando a revogação de autorizações para mineração, exploração de petróleo e grandes obras de infraestrutura que ameaçam a existência dos povos isolados. 

Por fim, há a demanda por Responsabilidade Financeira. A declaração convoca bancos, fundos de investimento e cadeias de suprimento globais a interromper o financiamento de projetos considerados predatórios, que colocam em risco o futuro desses povos e de seus territórios. 

Apesar de representar um avanço significativo na garantia dos direitos humanos, a Declaração de Jacarta suscita dúvidas relevantes quanto à viabilidade de sua aplicação e às implicações para a autonomia dos Estados nacionais:

O Paradoxo do Consentimento (FPIC), pois a declaração argumenta que, para povos isolados, o FPIC deve ser interpretado como "não intervenção". Como equilibrar o direito jurídico internacional ao "consentimento" (que pressupõe um diálogo) com a ausência total de comunicação? Ao transformar o consentimento em silêncio obrigatório, a proteção depende inteiramente da interpretação de terceiros (ONGs e Estado) sobre o que o povo isolado deseja.

O texto atribui as ameaças aos PIACI a políticas estatais que priorizam a expansão industrial e de infraestrutura, pois de que forma a declaração propõe mediar o conflito entre a soberania nacional e a criação de "No-Go Zones" permanentes? Em regiões ricas em minerais ou recursos estratégicos, a implementação dessas zonas exige uma vontade política que o documento admite estar em falta.

A declaração exige o fim do contato forçado por parte de missionários, influenciadores e turistas de aventura, para garantir a "proteção absoluta" em áreas remotas contra atores individuais ou corporações que operam na ilegalidade? O documento coloca a obrigação no Estado, mas a eficácia dessas medidas em fronteiras porosas permanece um desafio logístico e de segurança.

Por fim, o documento menciona a vulnerabilidade a doenças, e em situações de epidemias que podem dizimar uma tribo isolada, o princípio de "não contato" deve ser mantido mesmo que o contato médico seja a única forma de evitar a extinção física? A declaração não detalha protocolos para crises humanitárias de saúde.

A Declaração de Jacarta funciona como um chamado moral e político urgente. Ela acerta ao colocar o direito à autodeterminação acima do lucro econômico, mas deixa em aberto os mecanismos práticos para resolver disputas territoriais com Estados que veem o isolamento como um obstáculo ao progresso.


Ler a declaração:

https://bit.ly/3MBEnHS


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Documentação para a Autonomia

 Documentação para a Autonomia: 

Livro Apresenta a Luta e os Desafios do Povo Hupd'äh no Alto Rio Negro





Livro publicado originalmente em 2009 sob organização de Renato Athias, intitulado:"Ações Indigenistas e Experiências de Intervenção entre os Hupd'äh do Alto Rio Negro" consolida-se como um documento fundamental para compreender a complexa realidade dos povos do Noroeste Amazônico. O livro reúne projetos, relatórios executados pela Associação Saude sem Limites (SSL) em parceria com o NEPE/UFPE ampliando assim, os  estudos multidisciplinares que jogam luz sobre a trajetória dos Hupd'äh, tradicionalmente conhecidos como "indígenas da floresta" e pertencentes à família linguística Nadahupy.

Historicamente, os Hupd'äh mantêm relações complexas e frequentemente assimétricas com os povos Tukano, os "habitantes ribeirinhos". Tradicionalmente caçadores e coletores nômades, eles enfrentaram um processo de sedentarização induzido por missões religiosas. Essa transição forçou a mudança do interior da mata para grandes aldeias próximas aos rios principais, alterando drasticamente seu modo de vida e relação com o território.

A concentração populacional em aldeias sedentárias trouxe consequências severas. Especialistas alertam para a deterioração da saúde, com surtos de doenças transmissíveis como a tuberculose, que chegou a atingir níveis pandêmicos em certas áreas, e o tracoma, que causa cegueira. A desnutrição e a falta de saneamento básico completam o quadro preocupante.

O livro detalha ainda o sistema médico tradicional Hupd'äh, fundamentado no xamanismo e em conceitos como o hãwäg (alma) e as forças vitais ou negativas, conhecidas como b'atib'. As barreiras culturais dificultam a adesão à biomedicina ocidental, tornando essencial o diálogo entre os diferentes saberes.

Na área escolarização, a obra destaca a implementação de escolas específicas e bilíngues. O projeto logrou êxito na contratação de professores da própria etnia e na formalização da escrita na língua Hup, elevando a autoestima da comunidade. Uma proposta metodológica para o magistério indígena visa o fortalecimento político e a autonomia de povos como os Hupd'äh, Yuhup e Dâw.

A busca por alternativas econômicas é outro pilar do documento. Diagnósticos participativos sugerem caminhos sustentáveis para a segurança alimentar e geração de renda. Por meio da meliponicultura, utilizando abelhas nativas, além da criação de pequenos animais para complementar a segurança alimentar da comunidade. Também é valorizada a comercialização de itens tradicionais de artesanato, como o cesto aturá, que representa não apenas fonte de renda, mas também a preservação dos saberes culturais. No manejo ambiental, propõe-se a implementação de roças permanentes, visando maior sustentabilidade na produção agrícola, assim como o processamento de produtos típicos da região, como a banana passa e o colorau, potencializando o aproveitamento de recursos locais e fortalecendo a autonomia dos povos indígenas.

Avaliação e Impactos (2004-2007)
O antropólogo indígena Ivo Fernandes Fontoura assina uma análise crítica das intervenções realizadas pela Associação Saúde Sem Limites (SSL). O projeto piloto atendeu 619 pessoas em apenas seis comunidades, incluindo Taracuá-Igarapé e Nova Fundação. Embora tenham ocorrido avanços no controle de doenças e acompanhamento das gestantes, Ivo Fontoura aponta que as comunidades ainda sofrem com a falta crônica de medicamentos e a necessidade de infraestrutura básica, como caixas d’água para evitar contaminações por verminoses.

Recomendações Estratégicas
Para o futuro das ações na região, o documento propõe:
Na Educação: Integrar práticas de subsistência tradicionais ao currículo escolar e apoiar a construção física de novas escolas. Na Saúde: Intensificar a capacitação dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) em saberes técnicos e tradicionais, além de ampliar a equipe médica de campo. Na Economia: Oferecer oficinas de produção de alimentos com menor esforço físico e atuar como facilitador na venda de excedentes agrícolas.

Em suma, a obra não se limita ao diagnóstico, mas atua como um guia para intervenções que respeitem a dignidade e a cultura Hupd'äh, buscando reduzir a dependência de agentes externos e fortalecer a soberania indígena.

Autores do livro:
Danilo Paiva Ramos, Lirian Monteiro, Patrícia Torres, Ulrike Rapp de Sena, Ivo Fontoura e Renato Athias.

Acessar o livro, clique no link: https://bit.ly/exthupdah



sábado, 24 de janeiro de 2026

A Maloca não é apenas uma casa. É uma Casa de Saber. É um mapa do universo.

 



Em dezembro passado, fui tocado profundamente pela brilhante defesa de mestrado de Max Menezes, Tukano no PPGEO da UFAM. Ao ler sua dissertação sobre a Casa do Saber, minha memória viajou imediatamente para as palavras de Durvalino Velasquez, Waikhana de Iauareté.

Ele nos ensinou que a Casa do Saber é, antes de tudo, uma Casa de Dançar, de ritual, de vida em movimento. 

Essas leituras, somadas à compilação de Casimiro Béksta, abriram meus horizontes de uma forma nova. Percebi que, no Noroeste Amazônico, a arquitetura não é apenas construção: ela reflete a alma e o entendimento cosmológico de um povo inteiro.

A Maloca é um microcosmo sagrado: Os Pilares Centrais: Não apenas sustentam o teto, mas representam o eixo do mundo. O Telhado: É o próprio céu, o cosmos cobrindo a comunidade.

Mais do que abrigo, essas estruturas são espaços de resistência. É ali que a vida pulsa, onde as histórias são contadas e onde a identidade cultural desafia o tempo.

O trabalho de Max Menezes, Dudu Velasquez, Waikhana e os registros de Béksta são fundamentais. Eles traduzem e atualizam esses saberes ancestrais, nos lembrando que a “Casa de Saber” continua viva, vibrante e essencial

@maxtukano
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https://www.athias.com.br/2024/11/#1583932133901571025







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terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Benjamin Rondon, o fotógrafo da Expedição de Fronteiras 1929/1930

Fotografias de Benjamin Rondon, filho do Marechal Rondon da Expedição de Fronteiras 1929-1930 em Cucuí, Alto Rio Negro (bem na fronteira com a Venezuela e Colômbia. 

Benjamin Rondon, engenheiro-topógrafo e filho de Rondon, e José Louro, fotógrafo e cinegrafista experiente, que, a serviço do SPI, documentou contatos com os grupos indígenas da região do Amazonas, além de ter participado das campanhas da Inspeção de Fronteiras juntamente com o major Thomaz Reis.

As 92 imagens das atividades de Inspeção de Fronteiras estão reproduzidas em 80 pranchas em papel fotográfico, compondo este volume de esmerada encadernação em couro e revestimento em papel kraft marmorizado com guardas e espelhos em tecido tafetá, elaborada pela empresa Drux & Filho, especializada em marroquinaria, instalada à rua Uruguaiana, no centro do Rio de Janeiro.












Atenção na ultima foto, não é de Benjamim Rondon, mas mostra os presos políticos do Presidente Floriano Peixoto. Aqui os nomes dos presos politicos:

Da esquerda para a direita: Conde de Leopoldina, Dr. Campos da Paz, José do Parocínio, Dr. J.J. Seabra, Dr. Manoel Lavrador, Marechal Almeida Barreto, Coronel Dr Jacques Ouriques e Major Manoel Miranda, foto tirada à época em que José do Patrocínio e outros militares que se revoltaram contra o governo de Floriano Peixoto forma deportados para Cucuí, no alto Rio Negro, Amazonas, em 1892

Doação. Município de São Gabriel (Amazonas). 1924



Fonte:

https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/discover?query=Cucui


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Identidade Étnica

 


Outro dia eu escutei esta frase "ninguém nasce indígena". Na realidade, esta frase é complexa e profunda, pois biologicamente, todos nascemos humanos, mas o termo "indígena" é um termo juridico marcador de uma identidade que indica o pertencimento a um povo originário. Portanto é identidade social, cultural, política, territorial ligada a um povo originário, uma identidade étnica, que se manifesta por meio de ancestralidade, modos de vida e resistência cultural. É um conceito que transcende a mera biologia e envolve história e luta.

Povos Originários: São os descendentes dos habitantes originais das Américas, que viviam aqui antes da colonização europeia, preservando modos de vida e conhecimentos tradicionais, embora transformados ao longo do tempo.

A identidade étnica é fundamentalmente ligada ao autorreconhecimento individual e coletivo, sendo a própria comunidade quem reconhece seus membros, independentemente de onde vivam (na cidade ou na floresta).

Luta e resistência: A identidade indígena está intrinsecamente ligada à luta pela terra, cultura e direitos, como a exigência de educação diferenciada e a resistência contra invasões e apagamento cultural.

Diversidade étnica: Não existe um único "indígena"; são mais de 300 povos no Brasil, cada um com sua língua, costumes e história, como os Pankararu, Fulni-ô, Xukuru, Tukano, Akuntsú, Yanomami, Mehinako, Kuikuro, entre tantos outros povos.

Saber mais acesse o livro:

"A Noção da Identidade Étnica na Antropologia Brasileira"