Texto:
Renato Athias e Durvalino Chagas
Desenhos:
Luís Lana, Feliciano Lana e Afonso Machado
Texto elaborado a partir das narrativas contadas por
sabedores Waikhana
O trabalho de pesquisa que realizamos escutando, transcrevendo e lendo a mitologia dos Tukano Orientais (Yepa Masã) especificamente aquela dos Waíkhana (Piratapuia), nos leva a algumas considerações. A primeira delas se refere ao início da criação, o primeiro ato criativo. É interessante notar que todos os grupos lingüísticos da Bacia do Rio Uaupés ao representar o início da criação, se referem a uma idéia de vazio, antes de se iniciar o processo de criação do cosmos, do universo e a transformação do nosso mundo criado. Esse vazio, a existência do "nada", é expressa nas línguas com a idéia de masã madayá , que literalmente significa não tinha "seres" . Em oposição a essa idéia do “nada” aparece a idéia do "tudo" que compartilha esse mesmo espaço. Esse "Todo-Poderoso" está colocado nos relatos mitológicos como sendo Kõãkhën (na lingua waíkahna) que literalmente significa "osso-ser". O "osso-ser" é a expressão do começo das coisas, a parte principal que sustenta a constituição do Universo. É o ser que dele emana o "sangue" que gera que dá vigor, que dá a continuidade da multiplicação da vida. Hoje esse termo está associado à divindade, a Deus. Este vai ter várias denominações. Dá a idéia de crescimento, de desenvolvimento ou de metamorfose como tive a oportunidade de analisar em capítulos anteriores. O atributo de "Deus" como Criador supremo, recebe o nome de Ëhpó Kõãkhën, o Trovão. É o símbolo da presença ou existência com cujo barulho "gërërërërërë..." dá o sinal que é um Ser existente (Aqui não referimos o trovão do fenômeno físico, mas do ser transcendental ). É denominado também de avô do Universo Dehkoli Ñehkën. Interpretamos como sendo o princípio da "luz" do dia simbolizado pelo Sol. Ele é muito mais brilhante do que sol, no sentido de ser bonito esteticamente. O sol físico comparado com o Sol ontológico não passa que uma figura no papel. Esse mesmo personagem vai receber várias denominações de acordo com as línguas dos grupos lingüísticas Pa'miri Masã e as funções que vai desempenhar como dono do dia, dono da noite, dono da comida, dono da bebida, dono das músicas e instrumentos, dono da terra, dono da festa, dono da pajelança, etc.
O enunciado, o Senhor do Universo é a qualidade atribuída ao todo como "ente de conhecimento", muito sábio Wihõ Mahsënõ (paricá), como denominam os velhos. É um engenheiro, um arquiteto, um oleiro cujos instrumentos de trabalho foram somente as plantas do tabaco, mënõ; do paricá, wihõ, e da coca, patu, cuias utilizados como matéria para a criação. Sentado no seu banco de pedra de quartzo, pela fumaça do cigarro chamado mahsãli mënonõ (Cigarro de fazer surgir coisas do nada ), foi realizando a criação do mundo. Nota-se uma questão de gênero, interessante para identificar-nos diversos mitos a que tive acesso. Em alguns relatos esse termo é traduzido como avô, para outros é traduzido como avó. Pode ser tanto do gênero masculino como feminino. Dando assim a entender que o Avô é o homem-mulher, ato cognoscível-afetivo ao mesmo tempo. Assim como homem tem sua força produtiva e como a mulher tem sua força reprodutiva. Dentro de si tinha tudo, era tudo que possamos imaginar como "riqueza": ornamentos, bu'sa ahkadó, (coisas de festa), tipos de alimentos, tipos de sementes, o poder de destruir, proteger e criar (pretendidos pelos kumuã). Como diriam os filósofos gregos, era ato e potência. Para os Waikhana , o senhor ou avô é o que tem muito conhecimento prático e intelectual, capaz de resolver qualquer problema.
Um outro aspecto a considerar aqui se refere ao Universo. No imaginário dos Waikhana, o Universo é como uma grande casa bahsali wë (maloca), construída, tendo como esteios os quatro pontos cardeais como limites. São símbolos de dualidade oposta: o que nasce e o que põe, vida e morte, bem e mal, homem e mulher, etc. Nos instrumentos musicais também se nota isso, por exemplo nos pares de kalíçu: puhtidipa, yëtidipa (iniciador e responder), assim também nos pares de Miniã Pona (jurupari) pahidi puhti, meni puhtigã (grande e pequeno), nos pares de japurutu é igual como nos pares de kalíçu. E contém tudo com uma certa ordem. Estão presentes dentro do Universo bahsali wë, as criaturas humanas, os coxos para as bebidas fermentadas, as cuias para as bebidas em cima dos suportes, vários tipos de bancos para sentar, a coca, o tabaco e o paricá. Também nessa casa encontra-se a caixa dos enfeites bu'sa ahkadó com os vários tipos de instrumentos musicais, diferentes tipos de indumentárias e ornamentos. Na casa também tem todos os tipos de alimentação e estão presentes as gentes de vários povos. Só mais tarde, na grande viagem da Cobra-Canoa no processo de pamuWaikhana, o Universo, a grande casa, a maloca é expressa com a idéia de bahsali wë que literalmente quer dizer, casa de cantos e danças. Os Waikhana utilizaram esse arquétipo para construir como morada aqui na terra. Então, desde muitos milhares de anos vinham vivendo no bahsali wë até a metade do Século XX. O termo bahsali wë, foi traduzido para a Língua Geral ou Nheengatu pelo termo "maloca". Essa maloca foi destruída pelos missionários como a casa de orgia, feitiços, casa do demônio, casa do mal. Assim os índios começaram a criar no seu psiquismo que esse tipo de habitação não presta . Sobre o "não presta", Reichel-Dolmatoff (1968) faz os comentários muito significante", bahsali wë era o ambiente social onde se realizavam as festas de reciprocidade, também era sua "cozinha, dormitório, refeitório, tenda de trabalho" , ali o homem e a mulher nasciam, cresciam, viviam, se educavam e morriam sem pensar mudar-se para outro lugar, sentiam que essa casa era tudo, era seu mundo, seu universo. Se o filósofo Platão estivesse vivo diria que bahsali wë era sombra, cópia do verdadeiro arquétipo da casa do seu Criador [As descrições minuciosas sobre "bahsali wë" (Maloca), encontram-se no texto: A Maloca Tukano-Dessana e Seu Simbolismo, Kazys Jurgis Béksta, SEDUC/AM, 1988; Dos Años Entre Los Indios, Theodor Koch-Grünberg, Editorial Universidad Nacional, 1995, Santafé de Bogota, Col. 2v]. Seria talvez aquela casa que Thomas Morus idealizou no seu livro "A Cidade de Deus"? (fermentação, transformação) se tornou a realidade física como nós somos hoje.
É importante de considerar aqui à transformação de Masã - Gente. Essa é uma noção existente desde o início da criação. Se havia o "nada", o "tudo", a idéia do ser-vivo (reflete também a idéia de perfeição) e está expressa no termo Masã. O demiurgo, o criador transforma os Masã através do sopro-de-vida (energia vital) o que chamamos de Hedipona Bahseyé, provenientes da fumaça do tabaco nas "cuias-da-vida" (Kahtidi Wahastó). A criação dos ancestrais nas três cuias que formaram os "mini" universos onde as três "gentes" surgiram do poder deste sopro mediatizado pela fumaça do cigarro-da-vida (Kahtidi Mënõ). Por outro lado, o substantivo, masã, significa nascer, crescer. Em geral, masã (plural) ou masën (singular) são aqueles termos denominados, que poderíamos analogicamente asssociar as palavras de hoje, por exemplo: os "civilizados" (plural) ou "educado" (singular). No caso dos homens que não respeitam, por exemplo, a natureza, a outra pessoa, segundo sua tradição, não são considerados na categoria dos Masã.
Em algumas das versões existentes, as três criaturas, assinaladas anteriormente eram os primeiros ancestrais Pa'miri Masã, dos Waikhana, dos Yepá-Masã (Tukano) e dos Dehkoli Mahsënõ (Desano), conforme as várias narrações, os três eram iguais na língua, na sabedoria, no poder sobrenatural. Aqui levanto outra questão importante para entender os três personagens que surgem no Lago da Casa de Leite e se criam na Casa do Lago de Leite, migrando em forma da Cobra-Canoa invisivelmente dentro da água. Eles próprios eram a própria Cobra-Canoa. Por isso é inconcebível dizer que os Pa'miri Masã serviram-se de uma cobra como meio de transporte. Uma vez que eles estavam no estado de espírito semelhante ao próprio Criador, o avô do Universo, eles, portanto, tinham poderes mágicos e sabiam se transformar uma coisa, em outro momento em outra coisa.
Em outras versões Waikhana, as três cuias teriam sido os três ancestrais fundadores dos clãs Waikhana, seriam eles: Kenei, Bu'sanëno, Holipahkó. Eles eram três irmãos iguais, mas com funções diferentes. Na narração dos anciões Waikhana está claro que KeneiKenei tinha nome de Bu'sanëno quando ele assumiu como dono dos ornamentos, músicas e danças. "Holipahkó" é o nome da mulher - em outra versão ela é conhecida como Wehkolió. Quando Kenei assumiu como gerador de gente, dono dos multicolores imaginários, da estética, do amor à continuidade da cultura, seria denominado Holipahkó. Sabe-se que nas versões dos Desano, e dos Yepá-Mahsã, a(s) primeira(s) mulher(es) não tinha(m) vagina. Isso confere com a versão gravada do desana Marcelino (1970) e do Waikhën Luís Góis quando narravam sobre o nascimento do " Kahpi Mahsënõ". Como foi que fizeram a mulher tornar-se "verdadeira"? Na versão dos Desana e dos Yepá-Mahsã (Tukano), quando a criança Kahpi Mahsënõ não tinha como sair, então, os homens pegaram forquilha de cigarro cerimonial e mediram-na cortando com brinco (lâmina) de ouro, assim criando o canal de saída. Na versão dos Waikhana foi o peixe "wa'sosõën"(aracu-piau) que com a velocidade de impulso, deu impacto, assim criando o canal vaginal. Numa hipótese: Será que o próprio homem transformara-se uma mulher sem vagina para gerar "gente"? realmente é o que estava numa das três cuias. Os dois últimos aparecem assim no correr da narração já criada, imagina-se que vêm também das cuias, porém desconhece-se de que forma tinham surgido.
Conjetura-se de que os próprios ancestrais Kenei, Bu'sanëno e Holipahkó guiaram a grande viagem (conhecido como "caminho de leite" ) do grupo Waikhana, passando pelo litoral brasileiro, Rio Amazonas, Rio Negro, Rio Uaupés, até chegar à Terra definitiva, no Rio Macucu. Depois retornaram ao estado sobrenatural, quer dizer, não morreram, entrou dentro da terra em forma de espírito, no caso de Holipahkó, essa donzela se transformou em pedra-monumento. Em nenhum momento se ouviu que eles morreram e estão enterrados em algum lugar. No tema: "A 'Ontologia' dá Lugar à História", Mircea Eliade enfatiza o mito do retorno, com os seguintes dizeres: (...) " Esses Entes Divinos são capazes de mudar de modalidade; efetivamente, eles 'morrem' e se transformam em alguma coisa, mas essa 'morte' não parecem definitivamente, pois sobrevivem em suas criações" (1972:98). Hoje se interpreta que, o homem sai da casa bahsali wë sobrenatural vindo para este Mundo (nasce) e quando morre retorna para casa bahsali wë. Então, nascer é sair, morrer é entrar ou retornar para casa do Trovão.
A expressão "Panopëna mahsã hietimayé" (antigamente-tudo-era) denota que neste período mitológico todas as coisas eram "gentes". O que significa isso? É bastante complexo para traduzir em outra língua. O sentimento de pertença, a consciência de que tudo o que é da natureza possui espírito e é um ser-vivo (ser-movente, inteligível). Se tudo que possui "espírito" tem mudança, tem vida, portanto sente, se alimenta, sofre e morre como gente. O que tem essas qualidades, logo sente a dor. Então, não faça mal, dizem os anciões. A terra é Yepá-didó-mahsonõ (Terra-carne-gente), uma vez que faz parição de tudo que existe ao nosso redor e no universo-natureza. Com as outras palavras: terra é como corpo da mulher, a mãe Yepá-Pahkó . É como a "deusa" que não deixa faltar nada. Ela faz parto, cria, alimenta e acolhe após a morte. Sendo assim a Terra sente, sofre a depredação humana.
Em oposição às forças que estão presentes nos Masã, encontramos os seres vivos que são conhecidos e identificados como sendo os wai-masã, entes espirituais da natureza criados pelo Trovão. São os espíritos dos animais aquáticos, terrestres, árvores, pedras, terras, aves, água. Esses waí-mahsã estão presentes em toda natureza. De acordo com os kumuã, os wai-masã tiphepunlita mëhsã né bahuadopë wiheken, ali wë, dia puiakhan wëpëta tohaya nianyé" E os Waikhana que estavam, também, nessa fase, conseguiram passar ao dinamismo (transformação). Os wai-mahsã que não evoluíram, odeiam as gentes, os masã. Então, ele deve munir com o ritual e cerimônias de proteção contra esses "espíritos" da natureza, para não ser vitima de ataques, principalmente quando se desrespeita a natureza. A doença de origem provocada pelos wai-mahsã, só poderá ser resolvida pela força das palavras (benzimentos) dos pajés. são entes que não evoluíram, ficaram no estado de estagnação (estático) por vontade de Trovão.
Segundo Luís Góis, uma parte dos "wai-mahsã", ficou na casa "Temedawi" porque não queria entrar na Cobra-Canoa, então, Kenei disse: "Na grande viagem "subaquática", o "caminho do leite", os Pa'miri Masã foram provados e tiveram que ultrapassar vários obstáculos. O divino Sempinonõ (pássaro cobra), o símbolo catamórfico (do terror) provocou um dilúvio matando todos os seres vivos. Este foi o primeiro obstáculo. Exterminado por Trovão (Ëhpó), não impediu que se desse uma nova criação dos seres-vivos. Durante esta viagem na foz do Rio Amazonas, foi provado pelo Trovão. Ele fez surgir um grande obstáculo de terra na foz do Rio Amazonas os Pa'miri Masã, para vencer o obstáculo se valeram uma fórmula mágica. Como os Pa'miri Masã conheciam as palavras de benzimento e cantando, conseguiram passar transformando-se em ondas grandes capazes de submergir a colina. No Rio Negro, os wai-masã queriam acabar com os Pa'miri Masã, mas eles conseguiram ultrapassar realizando a cerimonia da sopro-da-força. No Rio Uaupés, no lugar chamado Dia Uhpudá Wë, teve outro inimigo cobra breu que tinha intenção de aniquilá-los. Eles conseguiram passar por eles pela força do sopro-de-sono. Na casa chamada Buuwahadá, no remanso da cachoeira de Ipanoré, di'doá (ancestrais dos Taliáseri), esses eram espertos e traiçoeiros, mas os Pa'miri Masã foram mais espertos do que eles. Conseguiram passar despercebido através do sopro-de-distração de tomar banho.
Segundo a narrativa do Luís Gois, na cachoeira de Ipanoré, o "personagem" caranguejo aguardava os Pa'miri Masã, justamente, na saída do buraco, para cortá-los com sua tesoura sem piedade enquanto eles vinham aparecendo na saída do buraco. Mas o Trovão não o permitiu, deixou-o distrair com um caxiri e comida, esse foi o sopro-da-bebida. Bem acima da ilha de Taabuhti Nëhkëõ moravam peixes piranhas do tamanho de um forno de farinha. Eles aguardavam para comer todos os Pa'miri Masã. Conseguiram passar com muita esperteza e simulação. Subiram para a terra, vararam acima da casa das piranhas. Em Iauareté Cachoeira, aguardavam os yaipikana para devorar os Pa'miri Masã. Prevenidos, passaram por outro lugar, ou seja, pela terra. O último inimigo foi a anta: sua intenção era exterminar todos os Pa'miri Masã porque eles roubaram o apito dela (em Dia Wë). Construiu "keó" (caiá) na correnteza da cachoeira, no pensamento dela, os Pa'miri MasãWaikhana iriam cair nessa armadilha. Qualquer coisa que caia nela, pegava com raiva, levava para margem do rio e amassava até virar em minúsculos pedaços. Mas o chefe dos WaikhanaKenei) soube antecipadamente através de alguém "ahpekina" (outros), foi informado sobre o plano mortal. Kenei tinha supremacia ao ente anta, por isso não teve medo. Logo abaixo do local onde a anta esperava, os Pa'miri Masã fizeram tradicional festa de Kapiwaya. A anta foi até lá, aproximou do Kenei com a dissimulação de ser bonzinho, mas Kenei não duvidou da sua intenção de vingança, agarrou-a decepando a sua cabeça. Os companheiros do Kenei não era cabeça de anta, mas era a cabeça de colibri porque não pesa nada". Chutaram a cabeça da anta em cima da outra pedra, aí se transformou em pedra, também, até hoje está lá.
Os Pa'miri Masã não tiveram nenhum momento de medo de enfrentar os inimigos, porque sabiam prevenir-se através da fumaça do tabaco e dos diversos sopros de proteção. Não houve luta corpo a corpo, a não ser com a anta apenas face a face. Embora fossem da mesma categoria de espírito (wai-mahsã), pareciam não se darem bem. O escudo da proteção dos Pa'miri Masã estava no poder sobrenatural do sopro.
Os Pa'miri Masã foram considerados grandes "Yaidoá" (xamãs) e kumuã (benzedores) pois possuíram poderes sobrenaturais, pois havia uma estreita ligação com o ente Trovão através do caminho imaginário, hoje simbolizado pelo "Yaí" (bastão-maracá). Para os Waikhana, "Kenei" foi o primeiro grande "yaidó" e "kumu". Ao longo da viagem de transformação, "Kenei" transmitiu a seus irmãos Waikhana os poderes sobrenaturais. No tempo remoto, a conversa dos Waikhana girava em torno dos conhecimentos cosmológicos e cosmogônico. Esse conhecimento foi passando de geração a geração. Dentre os Waikhana, haviam os "Yaidoa" que se assemelhavam como "Kenei" ou queriam comparar como sendo iguais ao Avô do Universo, o Trovão. Os "Yaidoa" e kumuã foram são aquele que fazem a ligação entre o Criador, mediadores e protetores do povo contra o mal da natureza e do próprio homem. Eram "segurança, coração, alma" para seus irmãos Waikhana. Os Yaidoa e kumuã fora dos poderes legado pelo Criador, não faziam, não inventavam a seu bel-prazer. Nos encontros realizados durante a pesquisa de campo, em vários momentos escutei os velhos discursarem, sobre a não invenção: "Nós falamos, fazemos essas coisas porque os nossos ancestrais faziam assim, nós não expressamos pela invenção da cabeça. Sendo assim, as nossas conversas têm valor para nós"
Outro fato que merece realce é o aparecimento do homem "branco". No princípio todos que estavam na Cobra-Canoa eram iguais na fala e na cor. Após a saída do Pa'miri Masã, o "buraco de emersão", na cachoeira de Ipanoré, começou entrar em ebulição semelhante a um grande caldeirão de breu ou de asfalto. O Trovão ordenou que alguém caísse dentro do caldeirão borbulhante. Dentre eles houve um que tinha coragem e ele caiu dentro e desapareceu. E outros pensaram que o arrojado indivíduo debaixo do breu quente não escaparia o cozimento. Passados alguns minutos veio à tona todo transformado, esbranquiçado. Mudou a cor de pele, de cabelos, de olhos, talvez até o pensamento. O ancestral dos Waikhana não teve coragem de cair dentro do caldeirão, todavia molhou as palmas das mãos e as palmas dos pés. Continuou com a mesma cor. O Trovão deu para o ancestral dos brancos uma espingarda, o símbolo de poder, de conquista, de guerra e de riqueza. O Trovão ordenou que fosse povoar, guerrear... lá no sul. Segundo a interpretação do Leonardo Alcântara (2001), o Trovão disse: "Você vai fazer sua morada lá no outro lado do mundo" . O interpretador estava referindo-se à Europa, Ásia e o Oriente Médio. Quando o Criador acabou de dizer as palavras de ordem, o ancestral dos brancos sumiu da vista, passados alguns minutos, no outro lado do mundo deu um estrondo como se fosse um tiro de canhão. Lá estava ele nascendo, se transformando pessoa humana.
O padre também foi com ele. Sabendo do episódio, os meus antepassados índios sabiam sobre a existência do irmão que partiu longe e que um dia voltaria. Sobre a profecia do retorno do "branco", escutei da minha família: houve na cabeceira do Rio Cuiú-Cuiú, afluente do Rio Papuri, na Colômbia, moravam os Desana muito antes da chegada dos brancos. Havia no grupo, um Yaidó (xamã) muito famoso e era poderoso viajante mágico no mundo dos espíritos. Em geral os Yaia (xamãs) bem preparado desde pequenos eram "capazes de viajar ao nível mais alto do cosmos (...) tinham poderes de presciência (...) de eventos" que iriam acontecer. Um dia, o yaidó famoso teve uma aparição real do Trovão. Quando ele estava voltando do passeio, numa clareira de mata capoeira, percebeu um barulho parecido com o do avião a jato acompanhado de vendo brando. Nesse meio estranho, viu a claridade surgir encima das ramagens de arbustos. Pouco a pouco no meio da claridade vinha surgindo uma figura humana esplêndida. O homem ficou sem saber o que dizer. O ser esplêndido disse-lhe de não ter medo e notificou que era o Avô do Universo. Comunicou-lhe que um dia viria homem de vestido branco para ensinar à catequese e como conseqüência a cultura do xamanismo seria extinta. Em compensação, na descendência do xamã, depois de várias gerações surgiriam padres natos e conhecedores da sabedoria dos brancos. Dizendo isso se afastou. Comentando com os filhos, o xamã desano dizia que não iria ver esse acontecimento nem os filhos, porém, os netos. Essa profecia do surgimento dos padres natos e os índios conhecedores da ciência do homem "branco", nós estamos presenciando o fato predito.
Nos tempos atuais, entre os Waikhana, depois que começaram a diminuir as categoria dos pensadores Yaidoá e kumuã, um "estado de nostalgia", de insegurança, de vergonha, sem importância, "ficou um vazio" e de "vergonha" enfatizando no depoimento do Senhor Vicente Garcia: "Ënhsanlen ahpekina bëhëpedé, tina mahsianga bahsapolé, tina mahsianga ënhsanlen nidé tha. Ënhsampé né mahsienda bó tohanata niã ënhsã" e relativo a "vergonha": "ali mahsã kuduli khene onsa pihti keó dihadolé yëlé yo to waeda kuhno wa.(...) Ñano waë niã mianogana, bëodo waëta niãhã yë". Em contraste a estas afirmações, houve alguém que garantiu aos que desconhecem as "coisas do antepassado Waikhana", uma esperança deles aprenderem pouco a pouco em cada encontro que houver.













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